quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

ÉTICA EMPRESARIAL - O caso Bernard Madoff: mais um golpe na confiança

A confiança vive tempos difíceis. Mercados bem-sucedidos − na verdade, todos os sistemas sociais − requerem de seus participantes que se comportem eticamente. A recente prisão de Bernard Madoff, acusado de fraudar milhares de investidores em US$ 50 bilhões através de um artifício conhecido como esquema Ponzi, não passa de mais um episódio, o mais recente deles, na escalada negativa da confiança em Wall Street. Maurice E. Schweitzer, professor de gestão de operações e de informações, e G. G. Richard Shell, professor de estudos jurídicos e de ética nos negócios, ambos da Wharton, pesquisaram de forma exaustiva o papel da confiança nos mercados. Em entrevista concedida a Knowledge@Wharton, os professores explicam por que até mesmo os investidores mais experientes acreditaram em Bernard Madoff e de que maneira o esquema prejudicou os mercados em geral.

Knowledge@Wharton: Por que até mesmo investidores experientes continuam a ser ludibriados por fraudes como as do esquema Ponzi?

Maurice Schweitzer: O escândalo Madoff é a história de diversos princípios influentes e poderosos em ação ao mesmo tempo. São princípios descritos nos compêndios escolares. Neste caso em particular, quatro deles se destacam em relação aos demais. Em primeiro lugar, temos o princípio da escassez: os investidores foram informados de que o fundo estava fechado, mas talvez fosse possível admiti-los. Era um fundo exclusivo, e houve clientes que foram expulsos porque fizeram perguntas demais. O segundo princípio é o da autoridade. Madoff, em 1990, era presidente da Nasdaq. Ele foi pioneiro no segmento de transações eletrônicas. Foi membro do conselho de administração. Tinha aquele ar de autoridade. Sabemos pelas experiências de Milgram, e por outros estudos, que as figuras de autoridade exercem uma influência profunda sobre nós. O terceiro princípio é o da adesão social. Todos estão fazendo a mesma coisa: instituições como a Autoridade de Investimentos de Abu Dhabi, a Line Capital de Cingapura e gente como Steven Spielberg e o dono dos Mets de Nova York. Basta olhar em volta para ver que todos estão fazendo o mesmo. Portanto, parece que é a coisa certa a fazer. Em quarto lugar aparece o princípio da identidade. Somos influenciados por pessoas parecidas conosco. No caso em questão, as pessoas vieram de redes sociais, de clubes de campo, de eventos promovidos por instituições de caridade. Foram coisas desse tipo que as atraíram. Portanto, temos a articulação simultânea desses quatro princípios clássicos de influência. Por outro lado, existe também o raciocínio motivado. Os investidores estão dispostos a acreditar que terão ganhos baseados em juros constantes de 10%, 11%, e por isso se dispõem a deixar de lado todo e qualquer julgamento crítico. Creio que erramos ao não nos dar conta da força de todos esses princípios sempre que atuam juntos.

Knowledge@Wharton: Se as alegações contra Madoff forem verdadeiras, isto quer dizer que seu esquema durou mais do que a maior parte dos esquemas Ponzi. Como foi que ele conseguiu isso?

G. Richard Shell: Houve uma falha de regulação. É disso que o Congresso parece estar tratando agora. O esquema chamou a atenção pelo fato de que o fraudador ludibriou os órgãos reguladores, bem como os investidores. O que Maurice disse a respeito da autoridade que Madoff tinha explica, em parte, como a fraude foi possível, já que ele era um insider. Quem foi presidente da Nasdaq pode ser considerado íntimo dos órgãos reguladores. Fica mais difícil descobrir o que se passa quando não há sinal externo algum de fraude. Com isso, o engodo prosperou, e com o passar dos anos, tornou-se cada vez mais convincente. Olhando agora em retrospectiva, parece fácil identificá-lo: era uma espécie de uma fórmula secreta que ele não a revelou a ninguém. Muita gente decidiu não participar do negócio, porque não havia como vislumbrar, por trás do véu que encobria o esquema, de onde vinha o dinheiro. Hoje essas pessoas parecem muito inteligentes, mas diante das perspectivas de então, quem deixasse passar uma oportunidade dessas seria considerado tolo. Era como se agissem com cautela exagerada. Investidores sempre em busca de novos negócios se deixaram seduzir. Portanto, creio que a vida mais longa dessa fraude se deve ao fato de que ela foi capaz de ludibriar o sistema regulatório e, ao mesmo tempo, os investidores. Trata-se de uma dupla praga difícil de extirpar com prazo certo e em numerosos mercados diferentes.

Knowledge@Wharton: Será que as atividades de Madoff não foram também ajudadas pelo desempenho do mercado na época?

Shell: Sim, em vários momentos diferentes, já que os mercados subiam e desciam. Ele sobreviveu ao estouro da bolha de tecnologia. Coisas que agora nos parecem tão óbvias − ele dizia a seus clientes que havia negociado para cada um deles um número determinado de opções que, na verdade, era superior ao volume negociado durante todo aquele dia. Agora, parece óbvio. No entanto, as pessoas não comentavam essas operações umas com as outras. E como disse o Maurice, às vezes essa vontade de acreditar é muito forte. As pessoas preferem não acreditar em indícios que contrariem sua crença. Isso exigiria que elas se desfizessem de uma porção de pressupostos sobre a vida, sobre as pessoas com quem mantêm contato. O preço emocional e cognitivo a pagar é alto demais. O que elas fazem então quando são informadas? Pegam o relatório, enfiam na gaveta e se esquecem dele.

Knowledge@Wharton: Haveria meios de os investidores vencerem esse instinto? A que, especificamente, as pessoas deveriam recorrer para se proteger contra esse tipo de calamidade?

Schweitzer: Existem alguns princípios clássicos nesse caso. Um deles é o princípio básico da diversificação. Alguns investidores, evidentemente, se esqueceram disso no momento em que aplicaram tudo o que possuíam num lugar só. Não há dúvida de que temos de diversificar nosso portfólio. O segundo princípio, já referido por Richard, é o da supervisão. Nesse sentido, o exemplo é o do gestor de investimentos da GMAC, que cobrava taxas de quem queria investir com Madoff sem supervisão. O terceiro princípio adverte para a necessidade de se observarem os sinais de alerta. Às vezes, retornos bons demais para ser verdade, de fato, não são . Richard mencionou a falta de transparência. Concordo inteiramente. Falta também auditoria independente, que é extremamente importante. É fácil deixar tudo isso passar batido, se deixar levar pela multidão e por tudo o mais. No entanto, esses são princípios básicos que deveríamos seguir.

Shell: Nenhum golpe ou esquema Ponzi seria possível se não houvesse ganância. Benjamin Franklin, o fundador de nossa grande universidade, quando regressava aos EUA para fixar residência aqui na Filadélfia e fazer todas aquelas coisas fantásticas que fez, redigiu a bordo do navio que o trazia quatro princípios que deveriam nortear sua vida. Um deles era o seguinte: “Não se envolva com nenhum esquema que acene com enriquecimento rápido.” Isso foi em 1760. Creio que é isso o que acontece quando surge esse impulso de ser mais bem-sucedido do que o mercado, e de uma forma tal que seus problemas financeiros sejam resolvidos, quer de uma vez só, conforme propõe o esquema Ponzi, com 100% de retorno, quer a longo prazo. Esse processo, porém, não está de acordo com o funcionamento real do mercado, e era isso o que Madoff propunha. Portanto, devemos estar atentos a esse impulso. As pessoas habituam-se à ideia do risco, mas habituam-se também ao fato de que o trabalho, provavelmente, gera riqueza com mais frequência do que os investimentos financeiros.

Knowledge@Wharton: Contudo, tudo isso traz embutido a percepção de confiança. O investimento mais transparente ainda requer que o investidor tenha um certo grau de confiança com quem quer que esteja negociando. Os mercados serão afetados por causa disso?

Shell: Creio que sim.

Schweitzer: Sem dúvida. Há um nexo causal aí: outros investidores não vão ter a mesma confiança de antes em gestores de fundos de hedge e de investimentos honestos e verdadeiros. Haverá falta de liquidez, o que será prejudicial aos mercados.

Shell: A verdadeira tragédia do caso Madoff é que há um conjunto de intermediários que, até onde sabemos, fornecia assessoria financeira honestamente, mas que pegou o dinheiro dos investimentos confiados a eles certos de que teriam utilização diversificada e o aplicaram em operações comandadas por Madoff. Existem agora dois níveis de desconfiança. Um deles diz respeito ao modelo de fundo de hedge que era administrado por Madoff. Acho que todo o mundo, de modo geral, é um pouco cético em relação aos fundos de hedge devido à configuração atual do mercado. Contudo, a coisa mais difícil de imaginar é de que forma vamos superá-lo. Os profissionais da Tremont Capital [e outros] são pessoas que, sob todos os aspectos, administram de forma íntegra o dinheiro que lhes foi confiado. As pessoas confiaram a eles, de boa fé, o seu dinheiro e em seguida, sem que ninguém lhes dissesse coisa alguma, esse dinheiro foi aplicado num esquema Ponzi. Portanto, como podemos saber em que consultor financeiro confiar daqui para frente? Do ponto de vista do cidadão comum, nem mesmo marcas importantes e respeitáveis foram poupadas. Por isso, acho que o investidor médio não acredita mais hoje que sempre receberá de volta o dinheiro que aplicou.

Knowledge@Wharton: Como você disse anteriormente, as formas de ganhar dinheiro quase sempre estão associadas ao trabalho. Portanto, o indivíduo está disposto a confiar, mas é sempre bom checar o tipo de investimento a ser feito. É preciso, então, estar atento à evolução do investimento e conferir em mãos a documentação, que é mais do que o mero preenchimento de formulários.

Shell: Bem, acho que podemos aprender alguma coisa com aquelas pessoas que não investiram no esquema de Madoff. Ben Stein disse em uma de suas colunas do New York Times faz algumas semanas que havia sido convidado a investir com Madoff. Acho que ele chegou a avançar bastante no processo. A oportunidade surgiu há 20 anos, mas como ele é um sujeito inteligente, decidiu apresentá-la a dois consultores experientes e perguntou a eles se devia fazer o investimento. Os consultores analisaram a proposta, e como não tinham interesse pessoal no assunto − não eram consultores financeiros, e sim pessoas comuns a quem haviam feito uma consulta −, disseram que o negócio parecia bom demais para ser verdade. Não dava para imaginar como era possível o negócio funcionar do jeito que diziam que ele funcionaria, por isso o aconselharam a manter distância desse tipo de investimento. E foi o que ele fez. Acho que temos aí um bom modelo. Deve-se buscar orientação financeira, mas não de partes que tenham interesse no negócio. Não se deve confiar exclusivamente no consultor. É preciso consultar outras fontes, da mesma forma que fazemos quando temos um problema médico. Com isso, as chances de alguém cair numa armadilha dessas diminuem, já que a pessoa não está preocupada apenas em diversificar a aplicação dos seus ativos, mas também em se aconselhar com outras fontes.

Schweitzer: Creio que uma das dificuldades de longo prazo desse processo é, sem dúvida, a necessidade de supervisão e de mais de uma opinião. É um custo para o sistema, um problema, porém necessário. A confiança é como óleo lubrificante: facilita as transações, torna-as mais rápidas e mais baratas. Ela alimenta a economia, o que nos permite fazer negócios. Acontece que perdemos parte dessa confiança. Os custos agora vão aumentar. Há mais fricção, já que temos de investigar mais detalhadamente as operações realizadas. No entanto, considero tudo isso necessário. É evidente que se trata de coisas que deveriam ter sido feitas antes. Talvez a boa notícia é que os princípios básicos da supervisão e da diversificação serão retomados.

Knowledge@Wharton: Mesmo antes desse episódio, na questão do subprime, o impacto sobre a confiança foi grande.

Shell: Sim. O capital de confiança queimado nos últimos três meses foi enorme [...] e não só nos EUA, mas em todo o modelo capitalista ocidental. Não é de surpreender que, em última análise, a ironia disso tudo é que um governo republicano nos EUA tenha sido o catalisador da europeização dos mercados financeiros americanos. Isso não vai mudar. Vivemos agora uma situação de Europa no que diz respeito aos mercados financeiros. Não há mais bancos de investimentos. O modelo agora é totalmente diferente. Acabou o descontrole, mas permanecem as sequelas. Vai demorar um pouco até que as pessoas se disponham a correr riscos novamente. Mas, como diz o Maurice, nenhum sistema social pode funcionar sem confiança. Por isso, de algum modo, vamos ter de continuar a confiar uns nos outros. Será interessante observar que instituições surgirão e que nos permitirão recuperar a confiança perdida. Creio que as agências de risco vão mudar. A forma como as ações e os investimentos são avaliados também vai mudar. Os níveis de transparência mudarão. O indivíduo médio que tem dinheiro para investir terá de ser mais vigilante e mais preocupado com seus interesses.

Knowledge@Wharton: Obrigado aos dois pela entrevista.
Fonte: http://wharton.universia.net/index.cfm?fa=viewArticle&id=1644&language=portuguese - Publicado em: 21/01/2009