domingo, 15 de março de 2009

PETER DRUCKER, O OUTRO AUSTRÍACO




Peter Drucker, o outro Austríaco por Mark Skousen

Peter F. Drucker nasceu em 19 de novembro de 1909, em Viena, Áustria - faleceu em 11 de novembro de 2005, em Claremont, Califórnia, EUA, é considerado por todos o pai da Gestão moderna. Publicou 39 livros e inúmeros artigos acadêmicos sobre como os seres humanos estão organizados em todos os setores da sociedade, nas empresas, órgãos governamentais e nas organizações sem fins lucrativos.

Peter Drucker, o outro Austríaco
Peter F. Drucker entrou uma vez na diretoria de uma grande empresa em crise e sem rodeios perguntou, "Senhores, qual é o seu negócio?" A maioria dos executivos pensou que era uma pergunta superficial, mas Drucker continuou pressionando. Ele repetiu a pergunta inúmeras vezes. “Qual é o seu negócio?" Levou-lhes uma hora para descobrir o que Drucker estava querendo dizer: eles tinham perdido a visão. Quando voltaram aos fundamentos, eles encontraram seu caminho de volta à rentabilidade - tudo porque Drucker fez uma pergunta “insignificante”.

Drucker é eclético, independente e imprevisível. Embora ele seja conhecido como o Sr. Gestão, ele é um lobo solitário, trabalha sem secretário, e não tem o apoio de qualquer organização. Ele é estranho. Nas palavras de um admirador, ele é um "iconoclasta -- o destruidor de ídolos, investigador das provas, reivindicador de evidências, uma pedra no sapato, consistente e pragmático comentador dos problemas enfrentados pela nossa sociedade." (1)

Quase todos no mundo empresarial estão familiarizados com Drucker, ou por seus livros ou por suas colunas no The Wall Street Journal. Ele é um nome familiar entre os MBAs, executivos empresariais e estudantes de administração. Drucker é o consultor de negócios mais procurado do mundo. Seu vitae é múltiplo: advogado, jornalista, teórico político, economista, romancista, futurista e filósofo extraordinário. Agora em seus oitenta anos, com 25 livros publicados, ele ainda está na ativa como escritor e consultor, embora ele não viaje tanto como antes.

Os estudantes de administração e executivos me falam freqüentemente que as idéias de Drucker tem um certo traço "Austríaco". Eles dizem que a sua ênfase no empreendedorismo, inovação e investimento de capital, bem como suas denúncias contra o “grande governo”, a excessiva tributação e a economia keynesiana, estão em harmonia com as idéias de Eugen von Bohm-Bawerk, Ludwig von Mises, Friedrich August von Hayek e a Escola Austríaca de Economia.

Então: Peter Drucker é um Austríaco secreto?

Raízes vienenses

Literalmente falando, Drucker é Austríaco. Ele nasceu em 1909 em Viena, durante o apogeu da Escola Austríaca. Mas ele era muito jovem para participar do famoso seminário de Ludwig von Mises. Quando se formou no ginásio em 1927, ele foi para a Universidade de Frankfurt, onde obteve seu Doutorado em Direito no início dos anos 1930. Mas as suas raízes permaneceram vienenses. Ele recusou uma oferta de trabalho do Ministério Nazista de Informação. Em vez disso, ele escreveu uma monografia de 32 páginas sobre Friedrich Julius Stahl, filósofo alemão século XIX. Há muito para aprender tanto sobre Drucker, como sobre Stahl neste documento. Stahl era paradoxal: judeu por nascimento, protestante por conversão e conservador oposto à monarquia absoluta. Evidentemente, o documento de Drucker foi proibido pelos Nazistas. Como Mises, Hayek e outros inimigos do estado nazista, Drucker emigrou para o Ocidente antes da guerra eclodir. Ele viajou para a Inglaterra em 1933 e para os Estados Unidos em 1937.

O Administrador dos administradores

Evidentemente, a pergunta se Drucker é um Austríaco não é uma questão sobre a sua terra natal. É uma pergunta sobre a sua teoria econômica. Se a pessoa limitar a questão a sua abordagem da administração, a resposta é claramente afirmativa: o estilo da administração de Drucker é completamente Austríaca. Tempo, expectativas, novas informações e potenciais mudanças nos processos de produção -- todos os focos Austríacos -- são constantemente enfatizados em suas obras e consultas. O gerente deve ser um empresário e não apenas um administrador. Inovação é essencial. Em 1985, ele escreveu um livro inteiro sobre o tema Inovação e Empreendedorismo.

Ele critica a administração por se ocupar no planejamento de curto prazo, o que ele rotula de "keynesianismo industrial". Planejamento de longo prazo é mais arriscado, diz Drucker, mas é essencial para a sobrevivência, principalmente para grandes corporações. Os proprietários e os gerentes devem ser orientados para o futuro, ele sublinha. “A visão do amanhã é a tarefa de hoje” (2). Os japoneses foram tão bem sucedidos, Drucker afirma, porque eles são orientados para o longo prazo.

Em busca de uma nova ordem social

Foi a sua vida na América que inclinou o seu interesse para a gestão empresarial. Lá pelo fim dos anos 1930, Drucker começou a procurar por uma nova ordem social e industrial. Ele ficou desencantado com o capitalismo “desenfreado” da Grande Depressão. Mas o socialismo, o fascismo e o comunismo pareciam ainda piores alternativas aos males da sociedade.

Ele finalmente encontrou a sua resposta na única "maneira livre e não-revolucionária" - a grande corporação. Ele estava entusiasmado com sua descoberta: um grande negócio poderia proporcionar uma alternativa muito superior ao socialismo e “grandes governos”. De acordo com Drucker, as grandes corporações deveriam ser os canais pelos quais seriam estabelecidas a estabilidade econômica e a justiça social. Apenas as grandes empresas podiam assumir responsabilidades sociais como a segurança do emprego, treinamento, oportunidades educacionais e outros benefícios sociais. Essa foi uma alternativa absolutamente crítica numa época em que a livre iniciativa estava na defensiva em todo o mundo.

Depois da guerra, Drucker conseguiu um contrato de consultoria com a General Motors, que lhe deu uma oportunidade para desenvolver sua tese mais completamente. Seu estudo exaustivo da GM culminou na publicação em 1946 de Concept of the Corporation (Conceito da Corporação). Drucker chegou a inabalável convicção de que a grande empresa deveria ser a "instituição social representativa" do período pós-guerra e que as grandes empresas americanas, como a GM, deveriam assumir a liderança na construção da sociedade industrial livre.

Os executivos da General Motors ficaram ressentidos com o livro e ridicularizaram a idéia de que uma grande corporação deve assumir responsabilidades sociais. Mas a reputação de Drucker como um perito de administração cresceu, apesar do ombro frio da GM. Por volta de 1950, ele foi professor de administração na Universidade de Nova York, e em 1973, foi nomeado Clarke Professor de Ciências Sociais na Claremont Graduate School, na Califórnia.

Drucker afirma que uma empresa é mais do que uma entidade econômica. “Ainda mais importante do que a economia são as relações psicológicas, humanas e de poder que são efetuadas no trabalho e não fora dele. Essas são as relações entre trabalhadores, grupos de trabalho, tarefas, chefe imediato e de gestão.” (3) Os administradores da empresa têm um propósito moral e de responsabilidade social, além dos lucros de curto prazo. Drucker prevê a grande empresa como a instituição social, muito superior ao governo na provisão da aposentadoria, cuidados de saúde, educação, assistência às crianças e outros benefícios. Ele argumenta que o assistencialismo das empresas deve substituir o assistencialismo do governo. Drucker reconhece que essa atividade social poderia prejudicar o desempenho econômico, mas ele rejeita a exortação de Milton Friedman de que a única responsabilidade legítima da empresa é a de aumentar os seus lucros. Um governo letárgico criou um "vazio de responsabilidade e desempenho" que as grandes empresas precisam preencher.

Uma dimensão moral

As atitudes de Drucker em relação à gestão empresarial e governamental podem não ser de origem econômica, mas religiosa. "O único fundamento da liberdade é o conceito Cristão da natureza humana: imperfeito, fraco, pecador e pó destinado ao pó; mas o homem é imagem de Deus e responsável por suas ações". Ele apela a um retorno aos valores espirituais, "não para compensar o material, mas para torná-lo totalmente produtivo".

Mas até que ponto ele está disposto a levar esta idéia é uma questão aberta. Drucker tem sido criticado como um apologista de grandes empresas. E é verdade que ele tem sido relutante em discutir sobre as grandes empresas como um poder especial de lobby em busca de lucros. Drucker normalmente entende as empresas e o governo como adversários em vez de cooperadores. Em seu enorme volume, Management, seu capítulo sobre "Empresas e Governo" não menciona como uma grande empresa muitas vezes utiliza seus poderes para obter benefícios fiscais, subsídios, monopólio e as restrições à concorrência estrangeira.

Paul Weaver, um antigo executivo da Ford, descreve a extensão do estatismo corporativo como segue: "Desde o início elas [as grandes empresas] tem trabalhado agressivamente e imaginativamente neste sentido, e ao longo dos anos ganharam um deslumbrante conjunto de benefícios - tarifas , subsídios, monopólios oficiais, benefícios fiscais, imunidade contra certas ações prejudiciais, suporte do governo para pesquisas e desenvolvimento, programas gratuitos de formação de funcionários, e assim por diante, através de uma longa lista de indulgências e benefícios do Welfare State". (6) Infelizmente, o mestre é estranhamente silencioso sobre este problema crítico.

Drucker como Economista

Drucker é muito mais do que um consultor e escritor de administração. Ele também é um comentarista sobre política, economia e cultura. Aqui Drucker é mais difícil de categorizar.

Sua visão econômica está freqüentemente em linha com Mises e os Austríacos de hoje; outras vezes não. Ele freqüentemente rejeita noções que os Austríacos consideram essenciais. Ludwig von Mises e ele foram colegas na Universidade de Nova York na década de 1950, mas eles não tiveram muito contato. "Mises me considerava um renegado da verdadeira fé econômica", diz Drucker, e "com boa razão" (7). Drucker ficou desencantado com puro capitalismo laissez faire durante a Grande Depressão. Hoje, ele apóia uma abordagem a hamiltoniana para o governo - pequeno, mas poderoso. Ele acredita num grande presidente e num governo central que desempenham um papel importante na educação, desenvolvimento econômico e bem-estar. Além disso, ele rejeita o padrão-ouro e aprova um banco central.

Ao mesmo tempo, porém, Drucker defende muitas posições que os economistas do mercado livre iriam aplaudir.

A inflação é um "veneno social". O governo ficou maior, não mais forte, e agora só pode fazer efetivamente duas coisas – promover a guerra e inflar a moeda. O estado tornou-se um "monstro inchado". Ele continua: "Na verdade, o governo está doente -- e logo no momento em que precisamos de um governo forte, saudável e vigoroso." (8) Drucker defende a privatização dos serviços públicos como forma de reduzir a burocracia gigantesca. Na verdade, Drucker afirma que ele inventou o termo, denominando-o reprivatização em 1969 no seu livro The Age of Discontinuity. (9) A Previdência Social deve ser gradualmente substituída por planos de pensão privados. O imposto de renda corporativo, diz Drucker, é o "mais estúpido dos impostos" e deve ser abolido (mas substituído por um imposto sobre o valor acrescentado). O gasto com defesa é um "grave dreno" na economia civil, e deve ser cortado drasticamente. Os custos dos serviços públicos "gratuitos" são “inevitavelmente altos.” (10) Ecoando Hayek, Drucker afirma que nenhuma instituição pública pode operar de uma maneira eficiente porque "não é um negócio”.

Drucker é amplamente otimista sobre o futuro. Ele fala com entusiasmo sobre uma crescente economia mundial e o colapso do comunismo. Corporações multinacionais, grandes e pequenas, são muito mais importantes do que a ajuda externa ou interna dos programas de despesas do estado, e irá liderar o caminho para um novo nirvana. Quanto mais as empresas tornarem-se "transnacionais", mais saudável a economia mundial será.

Drucker é encorajado pelos acontecimentos nos países em desenvolvimento, especialmente os esforços no sentido de privatizar, desnacionalizar e abrir as economias nacionais ao capital estrangeiro. A pior mudança que um país em desenvolvimento pode fazer é adotar o marxismo. “O comunismo é mau (evil). Suas forças motrizes são os pecados mortais da inveja e ódio. Seu objetivo é a subjugar todas as metas e todos os valores ao poder; sua essência é a bestialidade; a negação de que o homem é alguma coisa exceto um animal, a negação de todas as éticas, do valor humano, da responsabilidade”. (11) Drucker desmascara o estilo soviético de planificação central, que só produziu o regresso. Ele conclui que as taxas de crescimento econômicas da União Soviética são em grande parte invenções da imaginação burocrática.

A busca pela "Próxima Economia"

Drucker manifesta um desprezo pela profissão dos economistas, que, segundo ele, ainda é em grande parte de natureza Keynesiana. Os economistas estão muito preocupados com a teoria do equilíbrio de uma economia fechada e não no crescimento, inovação e produtividade de uma economia global. Drucker afirma que a economia contemporânea está onde a medicina ou a astronomia estavam no século XVII. "Não há alunos mais lentos do que os economistas. Não há maior obstáculo à aprendizagem do que ser prisioneiro de teorias totalmente inválidas, mas totalmente dogmáticas." (12) Ele culpa o Keynesianismo por uma prejudicial mitologia anti-popança, causando "baixos níveis de poupança em larga escala" entre as nações ocidentais, especialmente os Estados Unidos. Além disso, "Keynes é em grande medida responsável pelo extremo enfoque de curto prazo da política moderna, da economia moderna, e dos negócios modernos ... A economia de curto prazo, inteligente, brilhante – e a política de curto prazo, inteligente, brilhante – abriu falência."

O guru da gestão também está desanimado com as escolas populares de economia atuais, incluindo os monetaristas e a Nova Escola Clássica. Eles também ignoram o empreendedorismo, a incerteza e o desequilíbrio. Drucker apela para que "próxima economia" seja "microeconômica e centrada na oferta", não na procura agregada, e deverá enfatizar a produtividade e formação de capital. (13)

A economia contemporânea Austríaca parece muito com a visão de Drucker sobre a "próxima economia". É de certa forma surpreendente que as obras de Drucker não mencionem o trabalho dos Austríacos de hoje, como Murray Rothbard, Israel Kirzner e Roger Garrison. Quando eu perguntei a sua opinião sobre os Austríacos contemporâneos, ele me disse que não estava familiarizado com suas obras. Ele não tinha ouvido falar da grande obra de Kirzner, Competition and Entrepreneurship (Competição e Empreendedorismo), embora Kirzner e Drucker tenham lecionado na Universidade de Nova York na década de 1960. (14)

O economista favorito de Drucker é Joseph Schumpeter, o economista de Harvard, nascido na Áustria. Num artigo de 1956, Drucker defende a privatização dos serviços públicos como forma de reduzir a burocracia gigantesca. Na verdade, Drucker afirma que ele inventou o termo, chamando-lhe "reprivatização", em 1969.

Em Modern Prophets: Schumpeter or Keynes? (Profetas Modernos: Schumpeter ou Keynes?) ele claramente apóia Schumpeter, predizendo que destes "dois maiores economistas deste século... é Schumpeter que amoldará o pensamento... em teoria econômica e política econômica para o resto deste século, se não para os próximos trinta ou cinqüenta anos" (15) Drucker gosta da ênfase de Schumpeter em desequilíbrio dinâmico e inovação por empresários que praticam a "destruição criativa". Em seu livro de 1985, Innovation and Entrepreneurship (Inovação e Empreendedorismo), ele enfatiza o impacto da mudança tecnológica, a inovação, o inesperado e novos conhecimentos sobre as empresas e a economia mundial.

Mas, evidentemente, Schumpeter foi um “enfante terrible” ("criança terrível") e renegado da escola Austríaca como ela se desenvolveu na linha de Mises e Hayek. Neste sentido, Drucker se encaixa mais no modo Schumpeteriano, embora ele não compartilhasse o pessimismo de Schumpeter acerca do futuro do capitalismo.

No fim das contas, Peter Drucker é ele mesmo.

A mente de Drucker é como um diamante bruto, proporcionando flashs de idéias para todos os lados. Ele é capaz de analisar assuntos complexos de forma que seus leitores e clientes capturem sua visão, vendo a simplicidade essencial por detrás do caos aparente.

Cedo ou tarde, todos os estudantes de administração descobrem Peter Drucker. Agora é a hora para os economistas e cientistas sociais descobrirem ele também.

Originalmente publicado em: http://www.mskousen.com/Books/Articles/austrian.html
Tradução e adaptação: Wellington Moraes.
http://www.endireitar.org/site/endireitar/301-peter-drucker-o-outro-austriaco

Notas:

(1) Tony H. Bonaparte, Peter Drucker: Contributions to Business Enterprise (New
York: NYU Press, 1970), p. 23.

(2) Peter F. Drucker, Preparing Tomorrow's Business Leaders Today (Englewood Cliffs, NJ: Prentice Hall, 1969), p. 290.

(3) Drucker, The Unseen Revolution (New York: Harper 6r Row, 1976), pp. 134-35, 168.

(4) Quoted in John J. Tarrant, Drucker: The Man Who invented the Corporate Society (Boston: Cahners Books, 1976), p. 30.

(5) Drucker, The Landmarks of Tomorrow, p. 264.

(6) Paul H. Weaver, The Suicidal Corporation: How Big Business Fails America (New York: Simon & Schuster, 1988), p. 18.

(7) See Drucker's autobiography, Adventures of a Bystander (New York: Harper k Row, 1979), p. 50. In an interview in 1991, Drucker told me that on the few occasions they met, Mises was always depressed. "He was one of the most miserable men I ever met."

(8) Peter F. Drucker, The Age of Discontinuity (New York: Harper k Row, 1969), p. 212

(9) ibid., p. 234.

(10) Drucker, The New Realities (New York: Harper & Row, 1989), p. 215.

(11) Drucker, The Landmarks of Tomorrow (New York: Harper & Row, 1959), p. 249.

(12) Drucker, The Frontiers of Management (New York: Harper & Row, 1986), p. 13. 13 Drucker, The Unseen Revolution, pp. 114-15.

(13) Drucker, Toward the Next Economics and Other Essays (New York: Harper k Row. 1981), pp.1-21.

(14) Israel M. Kirzner, Competition and Entrepreneurship (University of Chicago Press, 1973).

(15) The Frontiers of Management, p. 104.